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Como a desinformação das “bolhas” descredibiliza o crime contra Bruno e Dom Philips na Amazônia

Desde que o indigenista Bruno Pereira e o jornalista americano Dom Philips desapareceram na região do Vale do Javari, no Amazonas, em 5 de junho, a imprensa brasileira noticia com constância o caso, o qual teve um desfecho trágico, na quarta-feira, 15.

A Polícia Federal confirmou que um dos suspeitos confessou o assassinato dos homens. Ele teria atirado e enterrado os corpos de Philips e Pereira. Bruno trabalhava há anos na Funai, de onde estava no momento, licenciado, lutava contra crimes de desmatamento, garimpo, pesca ilegal e tráfico em terras indígenas, na Amazônia.

Atualmente, trabalhava como assessor da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). Enquanto isso, Philips escrevia reportagens sobre o desmatamento na Amazônia para o jornal The Guardian, e atualmente, produzia um livro sobre “como salvar a floresta”. A frase “Amazônia, sua linda”, foi a última postagem do jornalista britânico em suas redes sociais, e descreve por si só, o amor do jornalista pelas terras brasileiras.

Bolhas da desinformação

Nesses onze dias pós-desaparecimento dos dois, em grande proporção, quase numa competição com a mídia profissional, publicações na internet e redes sociais deram destaque às ações do indigenista e do jornalista. Porém, atribuindo a eles “erros” e “deslizes” de modo a torná-los não vítimas, mas culpados pela própria morte. Dá para entender?

Sabe-se que no Brasil, as “bolhas polarizadas” que propagam a desinformação nas redes, geralmente partem do contexto das postagens feitas por políticos. É o que confirma o Relatório “Desinformação, Mídia Social e Covid-19 no Brasil”, desenvolvido pelo MIDIARS e que teve como tema a desinformação sobre a Covid-19 durante a pandemia. O relatório afirma que “autoridades, principalmente pessoas que detêm cargo político têm um papel fundamental no espalhamento da desinformação”. No caso da Covid-19, o estudo mostra que autoridades políticas e de saúde respondem por mais de 47% do total de conteúdo desinformativo que circulou nos dados, dos quais a maioria (91%) era de influenciadores políticos.

Amazônia desprezada pelos brasileiros

No caso de Bruno e Dom Philips, as postagens nas redes mostram um Brasil feito por brasileiros que, pelo menos escondidos nas redes, não demonstram estar preocupados com a situação ambiental, indígena e degradante que existe na Amazônia. E atacam quem pensa ao contrário. Como um mundo à parte, se referem aos índios como um “ônus” da colonização brasileira. E aqui, apoiados por declarações políticas constantes do próprio presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, propagam a desinformação.

Jornalismo Declaratório contribui com a desinformação

O “Relatório da Desinformação” do MIDIARS comprova essa tendência, quando constata que “o jornalismo declaratório é usado para apoiar a ideologia defendida pela bolha”. Nessa semana, por exemplo, Bolsonaro foi destaque nas principais manchetes dos noticiários brasileiros ao dizer que “Dom Philips era mal visto na Amazônia” e que “os dois sabiam do risco que corriam”, ou seja, opinou, “lavou as mãos” para um assunto de responsabilidade do Governo Federal e acabou, através do jornalismo declaratório rotineiro das mídais, por incentivar apoiadores a dispararem o mesmo tom na internet. Aqui, o jornalismo declaratório fez a má escola e se espalhou pelo Twitter, Facebook e outros canais.

Publicações com desinformação nas redes sociais, de apoiadores do presidente, foram constantes. “Então quer dizer que o tal indigenista Bruno Araujo é aquele mesmo que tocava fogo na floresta para incriminar Bolsonaro? E o tal de Philip é funcionário de ong financiada por Bill Gates/Jorge Soros, e que entraram na floresta sem autorização do Ibama e da funai? Que si lasquem!”, dizia uma das publicações não checada e com cunho mentiroso porque Philip não era financiado por Bill Gates e os dois não entraram na localidade sem autorização.

Funai e Justiça

Uma publicação oficial da Funai em sua página oficial sobre a trajetória de Bruno e Philips  foi alvo de ação na Justiça. A juíza Jaiza Maria Pinto Fraxe, da 1.ª Vara Cível da Justiça Federal no Amazonas, determinou que a Fundação Nacional do Índio (Funai) não desacredite a trajetória do indigenista Bruno da Cunha Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. A magistrada ainda determinou que o órgão se abstenha de praticar qualquer ato que “possa ser considerado atentatório à dignidade dos desaparecidos” ou que implique em “injusta perseguição” à União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) ou aos servidores da Funai lotados na Coordenação Regional do órgão.

Isso porque a Funai foi a público dizer que as afirmações divulgadas pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) eram inverídicas quanto a supostas autorizações de ingresso em área indígena envolvendo o indigenista licenciado Bruno da Cunha Araújo Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips, desaparecidos na região do Vale do Javari (AM).

“No caso do indigenista, foi emitida autorização em âmbito regional para que ele ingressasse em terra indígena, com vencimento em 31/05/2022, sem o conhecimento dos setores competentes na Sede da Funai, em Brasília. Quanto a Dom Phillips, não há sequer menção ao nome dele na solicitação de ingresso citada pela Univaja”, diz a Funai.

Já a Unijava aponta que a “Autorização Ingresso em Terra Indígena n.º 11/CR-VJ/2022” (processo 08744.000170/2022-16), permitiu a entrada nas aldeias Kumãya, Maronal, Matkewaya, Morada Nova e São Sebastião, na localizadas na Calha do Rio Curuçá. O objetivo era a participação em reuniões “com o intuito de discutir sobre o território e estratégias indígenas para protegê-lo”.

Ou seja, desde o desencontro de informações às informações inverídicas, o caso tomou proporções que não condizem com a temática que merece ser valorizada: Amazônia e suas vidas.

O texto da Katia Brazil, publicado pela Amazônia Real, em 14 de junho, resume bem a problemática. “Na região do Javari, em Atalaia do Norte, assim como em Roraima, a população é contra a política indigenista, é racista e preconceituosa. “É um ódio ancestral, tem os massacres contra os não-índios e os massacres contra os indígenas isolados”, afirma a fonte da PF”, segundo o texto.

Foto: Bruno Kelly




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Escrito por

Independência editorial, jornalismo investigativo com a missão de ressignificar a notícia através da checagem de dados com o principal propósito de combate à desinformação.

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