Urna eletrônica é segura? Entenda como funcionam as auditorias

Urna eletrônica é segura? Uma arte com boletins de urna eletrônica
Gediel Mendes
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A urna eletrônica voltou ao centro do debate público com a proximidade das Eleições 2026. Entre as dúvidas mais compartilhadas nas redes sociais estão a possibilidade de o equipamento chegar à seção com votos registrados, sofrer alguma alteração no programa ou não permitir a conferência dos resultados.

Mas como a urna eletrônica funciona? O Brasil é o único país que utiliza esse tipo de equipamento? E de que maneira partidos, instituições e eleitores podem fiscalizar a votação?

A resposta não está em um único mecanismo de segurança. O sistema brasileiro funciona por meio de diferentes camadas de verificação, que incluem a inspeção do código-fonte, a assinatura digital dos programas, o Teste Público da Urna, a zerésima, o Teste de Integridade e o boletim emitido ao final da votação.

Também é importante fazer uma ressalva: nenhum sistema tecnológico deve ser tratado como infalível. Segurança eleitoral depende de fiscalização contínua, transparência, testes e aperfeiçoamento. É justamente por isso que o processo eletrônico brasileiro prevê auditorias antes, durante e depois de cada eleição.

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Só o Brasil usa urna eletrônica?

Não. A afirmação de que “somente o Brasil usa urna eletrônica” é falsa.

Levantamento divulgado em 2023 pelo International IDEA, organização intergovernamental que acompanha sistemas eleitorais, apontou que 34 dos 178 países analisados utilizavam alguma modalidade de votação eletrônica em nível nacional ou regional.

Desses, 17 adotam equipamentos de registro eletrônico direto do voto, conhecidos pela sigla DRE. A lista inclui Brasil, França, Índia, México, Estados Unidos, Bulgária, Peru e outros países.

Alguns sistemas produzem um registro físico conferido pelo eleitor; outros, como o brasileiro, não imprimem individualmente cada voto. O levantamento pode ser consultado no relatório do International IDEA sobre o voto eletrônico no mundo.

A comparação, entretanto, exige cuidado. Não existe um único modelo internacional de votação eletrônica. Em alguns países, a tecnologia é empregada em todo o território; em outros, apenas em determinadas cidades, estados, grupos de eleitores ou projetos experimentais.

Nos Estados Unidos, por exemplo, as regras variam entre os estados. No México, equipamentos eletrônicos foram usados de maneira limitada em eleições recentes. Por isso, dizer que vários países usam “o mesmo sistema brasileiro” também seria impreciso. O correto é afirmar que diferentes países adotam modalidades de votação eletrônica, com níveis distintos de abrangência e mecanismos de auditoria.

A urna pode chegar com votos registrados?

Não. Antes do início da votação, a urna eletrônica emite um relatório chamado zerésima. O documento apresenta todos os cargos e candidaturas daquela eleição e demonstra que nenhum voto foi registrado no equipamento.

Para as Eleições 2026, a Resolução TSE nº 23.751/2026 determina que a zerésima seja emitida antes da abertura da seção e assinada pela presidência da mesa e pelos mesários. Fiscais de partidos, federações e coligações também podem assinar. As duas primeiras pessoas da fila devem ser convidadas a acompanhar o procedimento. O resumo da zerésima precisa permanecer afixado em local visível na seção eleitoral.

Essa regra vale para todas as seções do país, inclusive as instaladas em Paranaguá, Antonina, Morretes, Guaraqueçaba, Pontal do Paraná, Matinhos e Guaratuba.

Portanto, a zerésima não é apenas uma informação armazenada dentro do equipamento. Ela é um documento impresso, conferido antes da entrada do primeiro eleitor.

Como é feita a contagem de votos depois do término das eleições

A votação das Eleições 2026 termina às 17h, pelo horário de Brasília. Logo após o encerramento, cada urna eletrônica contabiliza os votos registrados e imprime o Boletim de Urna, documento que apresenta o resultado daquela seção eleitoral.

Em seguida, os arquivos com os resultados são enviados à Justiça Eleitoral por uma rede privativa e protegida. Os dados recebidos pelos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) são encaminhados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), responsável por consolidar e divulgar a totalização dos votos.

Confira, passo a passo, o caminho percorrido pelo voto desde a urna eletrônica até a publicação do resultado oficial:

Votação
Eleitora registrando o voto na urna eletrônica

O eleitor registra o voto na urna eletrônica

Na cabine, o eleitor digita o número da candidatura, confere as informações exibidas na tela e pressiona a tecla Confirma. A urna registra o voto de forma sigilosa.

Encerramento
Impressão do Boletim de Urna e gravação do resultado BU

A urna imprime o Boletim de Urna

Depois do encerramento da seção, a urna imprime o Boletim de Urna (BU), com a quantidade de votos recebida por cada candidatura, além dos votos brancos e nulos. O resultado também é gravado em uma mídia protegida.

Transmissão
Arquivo de resultado enviado pela rede segura da Justiça Eleitoral

O arquivo é enviado pela rede da Justiça Eleitoral

O arquivo de resultado é assinado digitalmente e transmitido por uma rede própria e protegida da Justiça Eleitoral. A urna usada para receber os votos não fica conectada à internet durante a votação.

Totalização
Sede de um Tribunal Regional Eleitoral

Os boletins são totalizados

Os sistemas da Justiça Eleitoral recebem e verificam os arquivos encaminhados pelas seções. Nos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs), os resultados são somados para formar a totalização de cada estado.

Consolidação
Sede do Tribunal Superior Eleitoral

O TSE consolida os resultados

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reúne as totalizações encaminhadas pelos TREs e consolida os resultados nacionais das eleições.

Divulgação
Resultados eleitorais exibidos em celular e computador

Os resultados são publicados na internet

Os dados são divulgados nos canais oficiais da Justiça Eleitoral e podem ser acompanhados por qualquer pessoa. O resultado publicado pode ser comparado com o Boletim de Urna impresso em cada seção.

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O que é o boletim de urna?

Depois do encerramento da votação, cada equipamento imprime o Boletim de Urna, conhecido pela sigla BU.

boletim de urna eletrônica
Boletim de Urna – Fonte: Antonio Augusto / Secom / TSE

O boletim apresenta o resultado daquela seção eleitoral, incluindo:

  • quantidade de votos recebidos por cada candidatura;
  • votos dados às legendas;
  • votos brancos e nulos;
  • total de eleitores que compareceram;
  • identificação da urna, da seção e da zona eleitoral;
  • código de identificação e QR Code.

As vias são assinadas pelos integrantes da mesa e pelos fiscais presentes. Uma cópia deve ser colocada em local visível na seção eleitoral.

Partidos, federações, coligações, Ministério Público, imprensa e demais interessados também podem solicitar vias adicionais no momento do encerramento dos trabalhos.

Essa impressão cria uma forma descentralizada de conferência. O resultado de cada urna pode ser comparado posteriormente com os dados publicados pelo TSE. A resolução das Eleições 2026 prevê que a conferência também possa ser feita pela leitura do QR Code por meio do aplicativo Boletim na Mão.

Em 2022, o Tribunal de Contas da União comparou mais de 4 mil boletins de urna do primeiro turno e 604 do segundo turno com os dados da totalização. De acordo com o resultado divulgado pelo TCU, foram verificadas cerca de 5,8 milhões de informações, sem divergências.


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O código-fonte da urna pode ser fiscalizado?

O código-fonte é o conjunto de instruções que determina como os programas da urna e os demais sistemas eleitorais devem funcionar.

Ele não fica disponível livremente na internet para qualquer pessoa baixar, como ocorre em projetos de software de código aberto. No entanto, é disponibilizado em ambiente controlado para as entidades autorizadas a fiscalizar o processo eleitoral.

A legislação garante acesso aos sistemas a partir de 12 meses antes do primeiro turno. Entre as entidades que podem realizar inspeções estão:

  • partidos políticos, federações e coligações;
  • Ordem dos Advogados do Brasil;
  • Ministério Público;
  • Polícia Federal;
  • Tribunal de Contas da União;
  • Congresso Nacional;
  • Controladoria-Geral da União;
  • Sociedade Brasileira de Computação;
  • departamentos de tecnologia de universidades credenciadas;
  • entidades da sociedade civil habilitadas pelo TSE.

Para as Eleições 2026, o código-fonte foi aberto em 2 de outubro de 2025. Segundo o TSE, o procedimento iniciou um ciclo com aproximadamente 40 oportunidades de fiscalização e auditoria. As entidades podem utilizar ferramentas automatizadas, procurar erros, avaliar práticas de programação e solicitar esclarecimentos técnicos. As regras estão detalhadas no Ciclo de Transparência das Eleições 2026.

E se alguém modificar o programa da urna?

Depois do período de inspeção, os programas oficiais passam por uma cerimônia pública de assinatura digital e lacração.

A assinatura digital funciona como um mecanismo matemático de autenticação. Ela permite verificar se o software instalado é exatamente o mesmo que foi analisado, compilado, assinado e lacrado pela Justiça Eleitoral.

Não é correto dizer simplesmente que qualquer alteração faria a urna “travar na hora”. Tecnicamente, a cadeia de confiança impede que um programa não autorizado seja reconhecido e executado. De acordo com a Escola Judiciária Eleitoral, uma tentativa de executar software sem a assinatura esperada provoca o bloqueio do funcionamento.

As assinaturas e os resumos digitais também podem ser conferidos por programas de verificação da Justiça Eleitoral e por ferramentas próprias das entidades fiscalizadoras.

A urna eletrônica fica conectada à internet?

Não. A urna utilizada na seção eleitoral funciona de maneira isolada e não possui os componentes necessários para se conectar à internet, a redes móveis ou a redes sem fio.

Isso significa que os votos não são enviados para o TSE enquanto cada eleitor está diante do equipamento.

Depois do encerramento, a urna grava os arquivos de resultado em uma mídia própria. Esses arquivos são assinados digitalmente e posteriormente transmitidos por sistemas da Justiça Eleitoral para a totalização.

A urna que recebe o voto e a infraestrutura usada posteriormente para transmitir os arquivos são etapas diferentes do processo.

Como funciona o Teste de Integridade?

No dia da eleição, urnas escolhidas ou sorteadas são retiradas das seções e submetidas ao Teste de Integridade.

Representantes das entidades fiscalizadoras preenchem cédulas de papel, que são guardadas em urnas de lona lacradas. Durante o teste, os votos registrados nas cédulas são digitados simultaneamente na urna eletrônica e em um sistema de apoio.

Ao final, o resultado eletrônico é comparado com os votos das cédulas. O objetivo é verificar se o equipamento registrou e contabilizou exatamente o conteúdo digitado.

Nas Eleições 2026, o procedimento será realizado em todos os estados, no mesmo dia e horário da votação oficial. Parte das auditorias poderá contar com a biometria de eleitores voluntários, conforme as mudanças estabelecidas pela Resolução TSE nº 23.758/2026.

Houve Teste Público da Urna para as Eleições 2026?

Sim. O Teste Público de Segurança permite que investigadores submetam os sistemas eleitorais a planos de ataque controlados. Quando um ponto de melhoria é encontrado, a Justiça Eleitoral realiza correções e convoca os participantes para o Teste de Confirmação.

Na edição realizada para as Eleições 2026, quatro planos foram selecionados para confirmação. Segundo o relatório divulgado pelo TSE em maio de 2026, os achados não comprometeram o sigilo ou a integridade dos votos, e as melhorias recomendadas foram incorporadas aos sistemas. Os detalhes estão no resultado do Teste Público da Urna 2025.

O fato de participantes procurarem vulnerabilidades não significa que uma eleição tenha sido fraudada. Testes desse tipo existem justamente para encontrar e corrigir fragilidades antes que o sistema seja utilizado oficialmente.

Veja também: quais cargos estão em disputa nas Eleições 2026.

A urna eletrônica é auditável?

Sim. A auditoria não depende da impressão individual do voto de cada eleitor.

Entre os elementos que permitem verificar o processo estão o código-fonte, as assinaturas digitais, os registros de funcionamento da urna, o Registro Digital do Voto, a zerésima, o boletim de urna e os testes de integridade.

Uma auditoria conduzida pelo TCU entre 2021 e 2023 avaliou a votação eletrônica desde a preparação das urnas até a totalização. O Tribunal concluiu que o sistema dispõe de mecanismos de fiscalização em todas as etapas, embora também tenha apontado oportunidades de aperfeiçoamento em aspectos de segurança da informação. A conclusão está no relatório sobre a sistemática da votação eletrônica brasileira.

Essa ressalva é importante: auditabilidade e segurança não significam ausência de aprimoramentos. Sistemas críticos precisam ser continuamente testados, fiscalizados e atualizados.

Como o eleitor pode ajudar a fiscalizar?

O eleitor também pode acompanhar etapas públicas do processo.

No dia da eleição, é possível:

  • observar o resumo da zerésima afixado na seção;
  • acompanhar o encerramento dos trabalhos, quando autorizado pela mesa;
  • consultar ou fotografar o boletim de urna depois da votação;
  • ler o QR Code do boletim;
  • comparar os dados impressos com o resultado publicado pelo TSE;
  • comunicar irregularidades à Justiça Eleitoral;
  • verificar informações antes de compartilhar mensagens nas redes sociais.

Recebeu um vídeo ou uma mensagem afirmando que determinada urna registrou votos antes da abertura, alterou resultados ou estava conectada à internet? Antes de encaminhar, procure o número da seção, o município, o boletim de urna e a manifestação oficial do respectivo Tribunal Regional Eleitoral.

Desconfiança legítima deve levar à fiscalização e à busca de provas. Um conteúdo sem identificação da seção, data, documentos ou possibilidade de verificação não comprova fraude eleitoral.

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Gediel Mendes é jornalista digital e especialista em SEO e Marketing com mais de 20 anos de experiência no Paraná. Graduado em Marketing Digital pela Universidade Positivo e pós-graduado em Jornalismo Digital pela Uninter. Assessor de Comunicação da Ponte de Guaratuba e consultor em Estratégias Digitais para portais de notícias. Possui vasta experiência e diversas certificações nas áreas de jornalismo, design, marketing, gestão de redes sociais, tráfego pago, WordPress e SEO.