Na segunda-feira,18, o presidente Jair Bolsonaro recebeu embaixadores no Palácio da Alvorada, em Brasília, e fez ataques ao sistema das urnas eletrônicas e colocou em xeque a segurança do processo eleitoral brasileiro através de suas declarações infundadas. Na ocasião, ele falou que “as eleições de 2020 não deveriam ter acontecido”.

“O que eu mais quero por ocasião das eleições é a transparência porque nós queremos que o ganhador seja aquele que realmente seja votado. Nós temos um sistema eleitoral que apenas dois países do mundo usam. Queremos eleições limpas. Quero me basear num inquérito da PF após as eleições de 2018 onde um hacker falou que houve fraude e falou que ele tinha invadido o TSE. Então tudo começa nessa denúncia que foi de conhecimento do Tribunal Superior Eleitoral onde o hacker teve acesso à senha do ministro do TSE”, destacou.

Ele aproveitou a oportunidade também para atacar os ministros Edson Fachin (presidente do Tribunal Superior Eleitoral), Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Alegações falsas feitas por Bolsonaro sobre o processo eleitoral são desmentidas com provas. Bolsonaro na reunião com embaixadores.
Foto: Reprodução TV Brasil

“O sistema é completamente vulnerável segundo o próprio TSE”, disse Bolsonaro. “É impossível fazer uma auditoria das eleições aqui no Brasil. No Brasil não tem como acompanhar uma eleição. O sistema é falho, inauditável”, disse, espalhando desinformação.

“Quem escolhe o que uma pessoa pode ou não dizer é o próprio TSE, que caça parlamentar, que desmonetiza página, que cria jurisprudência dele mesmos”, atacou Bolsonaro.

A Secretaria de Comunicação e Multimídia do Tribunal Superior Eleitoral reuniu conteúdos que explicam alguns dos pontos inverídicos trazidos pelo presidente Jair Bolsonaro durante a reunião com os embaixadores.

9 alegações falsas feitas por Bolsonaro:

  1. Apenas dois países do mundo usam sistema semelhante ao brasileiro
  2. Hacker teve acesso a tudo dentro do TSE
  3. Hacker poderia excluir nomes de candidatos
  4. TSE não imprime voto mesmo com recomendação da Polícia Federal
  5. Observadores internacionais não conseguirão analisar a integridade do sistema, pois não há voto impresso.
  6. É uma empresa terceirizada que conta os votos
  7. TSE não acolheu as sugestões das Forças Armadas
  8. Urna autocompleta voto
  9. Falta de transparência do voto

Alegação 1: Apenas dois países do mundo usam sistema semelhante ao brasileiro

Informação é falsa!

De acordo com a apuração feita pela agência de checagem AFP Checamos, Bangladesh e Butão realmente utilizam sistema eletrônico de votação sem registro impresso. Contudo, além do voto eletrônico, Bangladesh também utiliza cédulas de papel.

Mas as máquinas de votar sem registro físico do voto não são exclusividade dessas três nações. Os equipamentos utilizados pelo eleitorado de parte da França e dos Estados Unidos para realizar a escolha de representantes também não imprimem comprovante físico da votação.

Leia também: Outros países além do Brasil, Butão e Bangladesh usam urnas sem voto impresso

Alegação 2: Hacker teve acesso a tudo dentro do TSE

A declaração é falsa!

Não há evidências de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tenha sofrido um ataque hacker bem-sucedido com vazamentos de dados. O que houve foi uma tentativa de ataque com acessos em massa, para derrubada do sistema do TSE — o que não envolve sequestrar dados, apenas sobrecarregar o sistema. Essa ação foi neutralizada. Além disso, durante a votação, as urnas não ficam em rede, e, portanto, não seriam afetadas mesmo que o ataque fosse bem-sucedido.

O esclarecimento você confere através da Justiça Eleitoral e das agências de checagem:

Alegação 3: Hacker poderia excluir nomes de candidatos

Mentira!

Em nenhum momento as urnas eletrônicas são conectadas à internet, nem possuem placa que dê acesso a outro tipo de conexão em rede (wi-fi ou bluetooth).

Muito pelo contrário: o dispositivo funciona de maneira isolada e sequer realiza a transmissão dos resultados da votação, que já são conhecidos pela população logo após o término da eleição, com a impressão do Boletim de Urna (BU).

Uma eventual manipulação na etapa de totalização seria facilmente identificada pela comparação entre o BU – que traz o resultado da votação em cada seção eleitoral – com os dados publicados no Portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Leia mais: Urna não pode ser manipulada via internet. Entrevista com hacker preso desinforma sobre sistema eleitoral.

Alegação 4: TSE não imprime voto mesmo com recomendação da Polícia Federal

Informação mentirosa!

Essa alegação é falsa e já foi desmontada pela agência especializada Aos Fatos, que traçou uma linha do tempo de todas as leis que tratavam do tema. De acordo com o esclarecimento produzido pela equipe do site, a Lei nº 12.034, sancionada em 29 de setembro de 2009, previa que, a partir das Eleições Gerais de 2014, o voto registrado na urna fosse impresso para conferência da eleitora ou eleitor.

Contudo, a norma acabou não sendo aplicada, pois em 2013 os ministros do STF concluíram que a impressão dos votos era inconstitucional devido à possibilidade de comprometer o sigilo e inviolabilidade do voto – direitos garantidos pelo artigo 14 da Constituição Federal. Em 2015, o assunto voltou a ser discutido pelo STF, que novamente se posicionou pela inconstitucionalidade da medida.

Sobre esse assunto você pode saber mais no site da Justiça Eleitoral, no Aos Fatos e AFP Checamos:

Alegação 5: Observadores internacionais não conseguirão analisar a integridade do sistema, pois não há voto impresso.

Organismos internacionais especializados em observação, como OEA e IFES, já iniciaram análise técnica sobre a urna eletrônica. Contarão com peritos em informática, com acesso ao código-fonte e todos os elementos necessários para avaliarem a transparência e integridade do sistema eletrônico de votação.

Leia mais no site do Tribunal Superior Eleitoral sobre a diferença entre observadores internacionais, nacionais e convidados.

Alegação 6: É uma empresa terceirizada que conta os votos

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclarece ser falsa a informação afirmando que o supercomputador empregado para totalizar os votos na eleição, ou seja, que soma os votos enviados por todo o país, é um serviço de nuvem, e não um computador físico.

O sistema de totalização é feito no TSE e é apresentado às entidades fiscalizadoras com um ano de antecedência bem como é lacrado em cerimônia pública.

Leia mais: Super computador do TSE não é serviço de nuvem estrangeiro que abre brecha para fraude

Alegação 7: TSE não acolheu as sugestões das Forças Armadas

Informação infundada!

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acolheu, de forma completa ou parcial, 32 propostas feitas pelos integrantes da Comissão de Transparência Eleitoral (CTE) ainda para as Eleições 2022. Esse número representa 72% do total de 44 propostas – o número inicial era 47, mas algumas repetições foram aglutinadas – e 25% delas (11 propostas) estão sendo avaliadas para as próximas eleições municipais. Apenas uma proposta foi rejeitada.

Leia mais:

Alegação 8: Urna autocompleta voto

Falso!

Em 2018, circulou na internet um vídeo no qual a urna, supostamente, auto completava o voto para presidente.

Avaliação de peritos em edição comprova que o vídeo é falso. Verificam-se cortes no filme, que confirmam que houve montagem. Além disso, no momento em que o primeiro número é apertado, o teclado da urna não aparece por completo, o que sugere que outra pessoa teria digitado o restante do voto. É possível, ainda, constatar, no programa de edição, o ruído de dois cliques simultâneos, o que reforça essa tese.

É importante enfatizar que não existe a possibilidade de a urna autocompletar o voto do eleitor, e isso pode ser comprovado pela auditoria de votação paralela.

Alegação 9: Falta de transparência do voto

Informação mentirosa!

“O que eu mais quero por ocasião das eleições é a transparência porque nós queremos que o ganhador seja aquele que realmente seja votado”, disse Bolsonaro.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) disponibiliza a qualquer pessoa um banco de dados que reúne informações das eleições de 1945 até 2020. O Repositório de Dados Eleitorais (RDE), que pode ser acessado no Portal do TSE, oferece arquivos e tabelas estatísticas contendo, por exemplo, resultados dos pleitos, perfil do eleitorado, prestação de contas e boletins de urna.